Arnaldo Jardim, Presidente da Comissão Especial da Transição Energética e Produção de Hidrogênio Verde.
Relator do Combustível do Futuro, Agro Sustentável, Energia Renovável, Biometano, Agenda Verde e Economia de Baixo Carbono.

Trajetórias humanas são impactadas por uma combinação de influências: genética, educação, formação profissional, eventos decisivos ao longo da vida e, também, de mentores.
Como avalia o impacto destes fatores para sua caminhada como homem público?
Nossa trajetória é um mosaico construído por diversas influências, e na vida pública isso se torna ainda mais evidente. Quando falamos de genética, me sinto privilegiado. Tive uma infância feliz, pais e irmãos maravilhosos - tenho ainda hoje a dádiva de contar com os lúcidos conselhos de meu pai, Aluísio. Sou de uma família que sempre valorizou o estudo, aprendi desde cedo que o conhecimento é a ferramenta mais poderosa para a transformação social. Minha formação em engenharia civil pela POLI (USP) me deu técnica e a dimensão do poder dos movimentos políticos e sociais organizados; o contato com as realidades sociais e econômicas do país deu sentido à aplicação desse conhecimento que havia adquirido.

Quanto aos eventos decisivos, destaco a oportunidade de ter sido Secretário de Estado da Agricultura e Abastecimento de São Paulo. Foi nessa função que mergulhei nas questões que se tornariam centrais na minha atuação: a força do agronegócio, mas também os desafios da agricultura familiar, a logística, a inovação no campo e a segurança alimentar. Foi uma lição prática de que o desenvolvimento do Brasil passa, necessariamente, pelo desenvolvimento sustentável do seu setor agropecuário.
Em resumo, minha caminhada é a síntese do que aprendi nos bancos da universidade, da sabedoria dos meus mentores (tive professores valiosos), da experiência prática nos governos e, acima de tudo, de um compromisso firmado com os valores que defendemos. A honestidade, o trabalho árduo e o respeito ao cidadão não são negociáveis. Eles são a bússola que orienta cada decisão, especialmente nos momentos mais complexos.
Com 31 anos foi eleito o mais novo deputado da Assembleia Estadual de São Paulo. E em 2024 conquistou a condecoração como o Congressista do Ano ao nível nacional. Quais considera as principais características que o colocam sempre entre os representantes democráticos mais destacados?
Agradeço o reconhecimento, que vejo não como uma conquista pessoal, mas como um reflexo de uma equipe dedicada e de um método de trabalho que cultivo há décadas.
Se eu pudesse resumir as características que acredito serem fundamentais para uma atuação pública relevante, destacaria três pilares:
Primeiro, a capacidade de transformar debate em ação legislativa concreta. A política não pode se restringir ao discurso; ela precisa gerar resultados tangíveis para a sociedade. Minha trajetória é marcada pela focalização em temas complexos, mas essenciais, como infraestrutura, transição energética, agro sustentabilidade. Busco, incansavelmente, unir o conhecimento técnico especializado à viabilidade política.

Em segundo lugar, o diálogo permanente e a busca por consensos. Em um ambiente plural e democrático como o Congresso Nacional, a imposição nunca é o caminho. A construção de maiorias sólidas e duradouras exige paciência, respeito às divergências e uma escuta genuína. Atuo como uma ponte entre o governo e o parlamento, entre o setor produtivo e a sociedade civil, entre diferentes correntes de pensamento. Essa postura não significa abrir mão de minhas convicções, mas sim entender que o progresso nasce do equilíbrio e do entendimento.

E, por fim, a consistência e a coerência. Desde aquele jovem deputado estadual, há décadas mantenho os mesmos princípios: seriedade no trato da coisa pública, transparência perante a sociedade e um compromisso inabalável com o desenvolvimento do Brasil. O povo brasileiro, com o tempo, aprende a distinguir entre o ruído passageiro e a obra consistente. É essa obra, alicerçada no trabalho duro, na especialização e no respeito às instituições, que me mantém ativo e relevante na vida pública, sempre com a humildade de quem sabe que governar é, antes de tudo, servir.
No Dia da Árvore postou uma mensagem dizendo que até em seu nome (Jardim – Nomen est Omen!) já existe uma referência a sua missão de cuidar da natureza. Pode dar alguns exemplos sobre como está contribuindo para essa questão?
É verdade, o Nomen est Omen — o nome é um presságio — parece ter me destinado a esta causa, que abraço não por uma questão nominal, mas por uma convicção profunda de que o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental são dois lados da mesma moeda. Cuidar da natureza é investir no nosso futuro mais básico: a qualidade de vida das pessoas.
Para ir além do simbolismo e citar ações concretas mais recentes, tenho trabalhado em várias frentes no Congresso Nacional. Fui relator do Projeto de Lei 528/2020, chamado “Combustível do Futuro” e, também, relator do PL que instituiu o Marco Legal do Hidrogênio, sendo presidente da Comissão Especial da Transição Energética e Produção de Hidrogênio Verde. Sou autor do Projeto que criou o Programa de Aceleração da Transição Energética (PATEN) e relator da Política Nacional de Resíduos Sólidos -PNRS e da Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais - PSA. Também sou autor do PL que institui o Programa de Incentivo à Produção e ao Aproveitamento de Biogás e de Biometano; do que induz a adoção de boas práticas ambientais, sociais e de governança - ESG; e do PL que cria condições para a descontaminação de Áreas Órfãs Contaminadas.
Além disso, atuo para fortalecer programas como o RenovaBio, nossa política nacional de biocombustíveis, que reduz emissões e gera emprego e renda de forma sustentável.
E, claro, não poderia deixar de mencionar o apoio ao agronegócio moderno e sustentável, setor do qual sou um defensor intransigente. Apoiamos e buscamos recursos para tecnologias que promovem a Agricultura de Baixo Carbono (ABC), o plantio direto, a integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a recuperação de pastagens degradadas.
Portanto, carregar o "Jardim" no nome é uma coincidência feliz, mas a missão de cultivar um Brasil mais verde e sustentável é uma escolha de vida, traduzida em projetos, leis e uma atuação parlamentar dedicada a construir essa ponte entre o progresso e a preservação. É a herança que queremos deixar para as próximas gerações.
Nesta linha temática, pode detalhar sua recente colocação de que o Brasil pode ser o Coração Verde da Inteligência Artificial mundial, sobretudo com a perspectiva e seu apoio para o REDATA programa que pretende trazer Datacenters para o Brasil? Como a IA pode ajudar num Projeto Verde?
A visão do Brasil como o "Coração Verde da IA" surge da convergência entre nossa imensa biodiversidade e a tecnologia do futuro. Nosso patrimônio natural é um vasto repositório de dados. A Inteligência Artificial é a ferramenta que pode decifrá-los, gerando conhecimento para agricultura de precisão, desenvolvimento de bioinsumos e combate a crimes ambientais.
Para que esse potencial se realize, precisamos, dentre tantas demandas, da infraestrutura física: os datacenters. É aqui que se insere o programa REDATA, que apoio vigorosamente. Ao atrair esses centros de dados para o Brasil, oferecemos a eles nossa matriz energética limpa e garantimos soberania sobre os dados gerados da nossa própria biodiversidade.
Dessa forma, a IA se torna uma aliada prática do projeto verde. É uma estratégia que transforma nosso capital natural em desenvolvimento sustentável e inteligente, posicionando o país na vanguarda da economia do século XXI.
Com o avanço acelerado da tecnologia torna-se mais importante encontrar novas formas de comunicação e interação entre as gerações. Também a democracia vive da renovação contínua. A juventude enxerga essa necessidade? Os partidos contam com ingresso suficiente de novos membros?
A juventude não apenas enxerga essa necessidade como é sua grande protagonista. Eles demandam canais de participação mais diretos e ágeis, compatíveis com a dinâmica digital, e trazem pautas urgentes como sustentabilidade, inovação e equidade. A vitalidade da democracia depende diretamente dessa seiva nova.
No entanto, é preciso reconhecer que os partidos políticos, como instituições, ainda não conseguiram se conectar plenamente com esse potencial. Muitas vezes, há um divórcio entre a linguagem e as estruturas partidárias tradicionais e a forma como os jovens se engajam. O ingresso de novos membros é significativo, mas o desafio maior é transformar essa participação em influência real dentro das agremiações. A renovação não é só de rostos; é de métodos, de agendas e de mentalidade. Cabe a nós, veteranos, criar as pontes e ceder espaço para que essa energia transformadora oxigene e fortaleça a nossa democracia.

Os Estados Unidos contam com 2 partidos. Nos países Europeus o poder legislativo é dividido entre 5 a 8 partidos. No Brasil estão registrados 30 partidos. Em sua visão, qual seria o arranjo partidário adequado para a diversidade social, cultural e geográfica do País?
O Brasil, com suas dimensões continentais e diversidade ímpar, naturalmente gera uma multiplicidade de visões políticas que precisam ser representadas. Portanto, um sistema rigidamente bipartidário não refletiria nossa complexidade social e regional.
No entanto, a pulverização extrema que vivemos, com mais de 30 siglas, frequentemente gera mais fragmentação do que representação. O grande desafio não é simplesmente reduzir artificialmente o número de partidos, mas promover um pluralismo com responsabilidade e governabilidade.
O arranjo ideal seria um sistema multipartidário moderado, onde forças políticas majoritárias, com projetos nacionais claros, possam crescer em torno de agendas comuns, sem suprimir a voz de legendas menores que representem causas específicas ou demandas regionais legítimas. O objetivo final deve ser um equilíbrio: um sistema que seja plural o suficiente para acolher nossa diversidade, mas coerente o suficiente para formar maiorias estáveis e garantir a efetividade do governo e do legislativo. Precisamos de partidos fortes, e não apenas de legendas de aluguel, para que a representação seja verdadeira e o debate, qualificado.

A polarização na maioria das democracias dificulta o debate político, seja em geral, seja nas famílias. Tem algumas sugestões para incentivar o diálogo, pelo menos nos almoços do domingo?
Essa é talvez uma das questões mais urgentes para a saúde do nosso tecido social. A polarização que deveria ficar no debate das ideias, infelizmente, invade o território sagrado dos afetos. Para os almoços de domingo, sugiro três princípios simples, porém poderosos.
Primeiro, recuperar a arte da escuta. Ouvir para compreender, não apenas para responder. Segundo, valorizar o que une: o carinho pela família, as memórias afetivas, o sabor da comida. A política é importante, mas não define o amor entre as pessoas. E terceiro, buscar pontos de convergência. Mesmo em visões opostas, há um objetivo comum por trás, como o desejo de um país melhor para os filhos.

O diálogo floresce quando nos lembramos que por trás de toda opinião política está um ser humano com uma história única. Retomar a cortesia e o respeito não é fraqueza; é a base que permite até mesmo o desacordo civilizado. E se conseguirmos isso nas mesas de jantar, estaremos dando um passo fundamental para restaurá-lo também na praça pública.
Por Francisco Vila

