Giovanna Zattar
Por que marcas autorais crescem quando encontram os territórios certos
Às vezes, chego para tocar com um set inteiro preparado e, nos primeiros minutos, decido abandonar metade dele. Não porque deixei de acreditar no set. A pista simplesmente ainda não está pronta.
Em outras noites, percebo cedo que conquistei a pista e posso ir mais fundo. Não existe fórmula exata. Existe leitura.
Demorei a perceber que fazia a mesma coisa nos negócios.
Sou DJ, produtora musical e fundadora de uma marca autoral. Aprendi a ler mercados como leio pistas: observo o contexto e entendo até onde posso levar minha linguagem sem traí-la. Identidade não basta. É preciso saber onde — e quando — ela será compreendida.

Durante muito tempo, o varejo tratou crescimento como sinônimo de presença. Para uma marca autoral, penso diferente. Estar no lugar errado pode custar mais caro do que não estar. Distribuição comunica. Contexto constrói valor. Nem toda oportunidade que aumenta faturamento fortalece uma marca.
Já aproximei a YARA de um mercado antes de a marca ter repertório para ocupá-lo. Hoje, com resort wear, alta chapelaria e bridal, entendo: aquele território fazia sentido para uma YARA que ainda não existia.
A intuição estava certa. O timing estava errado.
A música me ensinou a não confundir coerência com rigidez. Posso mudar um set inteiro sem mudar quem sou como artista. Nos negócios, adapto a execução, nunca a essência.
Foi por isso que Ibiza fez tanto sentido para mim.
Ibiza me interessa pela contradição: uma ilha marcada pela cultura hippie que se tornou um epicentro do luxo mediterrâneo sem apagar sua linguagem artesanal. Ali, uma maison e uma peça feita pelas mãos de um artesão local podem habitar a mesma paisagem. O sofisticado não precisou expulsar o rústico.
Trancoso me provoca pela mesma razão. O barro permanece no chão enquanto o alto luxo ocupa a hotelaria e o varejo. O feito à mão não é passado. É desejado.
É nessa tensão que a YARA se reconhece.
Sou brasileira, tenho origem libanesa, crio música com referências árabes e orgânicas e construo moda a partir de fibras e mãos brasileiras. Não penso criação por fronteiras rígidas, mas por linguagem e atmosfera. Alguns lugares entendem isso mais rápido.
A YARA foi idealizada na Grécia. Mas a Grécia não a criou. Deu-me coragem para materializar um universo que já existia dentro de mim e mostrou como o futuro pode conviver com o passado.
Sempre me interessei pelo que evolui sem apagar a própria origem.
Hoje, quanto mais a YARA se aproxima do resort wear, mais brasileira ela se torna.
Piaçava. Carnaúba. Seda de buriti. Técnicas transmitidas entre gerações. Conhecimentos que nenhuma máquina reproduz.
Não uso brasilidade como recurso de marketing. Vejo-a como uma vantagem impossível de fabricar. Quanto mais longe quero que a YARA chegue, menos genérica ela pode se tornar.
Vivemos cercados por referências replicadas em segundos. Nunca foi tão fácil reproduzir uma aparência.
Aparência, porém, não é origem.
Autoria, contexto e coerência ganharão ainda mais valor. A lógica de world building, associada à expansão de marcas como a Cult Gaia, traduz uma ideia que sempre me interessou: marcas fortes não precisam explicar cada novo produto quando o mundo ao redor delas já está claro.
Na YARA, esse mundo veio antes de eu saber nomeá-lo.
Nunca quis dar à marca o nome de um produto. YARA não nasceu para significar chapéu. Antes da primeira peça, existia uma persona, uma energia e uma dimensão quase espiritual.
A essência veio antes da categoria.
Hoje ela se materializa na moda e, em mim, também na música. Não construí dois universos.
Encontrei duas linguagens para materializar a mesma energia.
Por isso não gosto de dizer que estou “internacionalizando” a YARA. Não quero pintar um mapa e colocar bandeiras sobre países. Quero encontrar os lugares que são Yaraland no mundo.
Ibiza é Yaraland. Trancoso é Yaraland. Na Grécia, tive coragem de imaginá-la pela primeira vez. Não é apenas geografia. É afinidade: lugares onde música, moda, natureza e artesanato já falam uma língua próxima à nossa.
Existe um custo nessa escolha. Crescer por afinidade pode ser mais lento. Significa deixar receita na mesa e perguntar se uma presença constrói o futuro da marca. Para uma empresa em crescimento, isso não é poético. É desconfortável.
Mas marcas autorais pagam um preço muito mais alto quando crescem rápido demais na direção errada.
Não quero tocar em todas as pistas. A YARA não precisa estar em todas as lojas.
Quero que minha música encontre os lugares onde muda a energia da noite. E que a YARA encontre os lugares onde uma mulher olha para uma peça e sente que ela sempre pertenceu àquele cenário.
Crescer não é ocupar mais espaço. É pertencer, com mais força, aos espaços certos.

Giovanna Zattar
É empreendedora, artista, DJ e produtora musical. Fundadora e CEO da YARA, marca autoral brasileira de moda e design artesanal, constrói negócios a partir da interseção entre criatividade, identidade e estratégia. Formada em Negócios e com passagem pela UC Berkeley, transformou seu repertório multicultural e sua origem brasileira e libanesa em linguagem criativa, presente tanto na moda quanto na música. Seu trabalho conecta ancestralidade e contemporaneidade, com uma visão de futuro pautada por autoria, cultura e construção de universos.
@giovannazattar
@yara.atelier
Fotos: Divulgação

