A escolha de quem entra na sala define o nível da conversa que vai acontecer ali.
Empreendedor experiente percebe isso rápido. O valor de um ambiente raramente está apenas no tema oficial. Está na curadoria de quem ocupa as cadeiras.

Quando a sala reúne pessoas que já operam, faturam e tomam decisões sob pressão real, o repertório muda. Os exemplos ficam concretos, as perguntas mais precisas e as respostas levam menos tempo para virar aplicação.
Depois de muitos anos transitando entre Brasil e Estados Unidos, percebi uma diferença interessante entre os dois ambientes empresariais.
O brasileiro é extraordinário na construção de relacionamentos. Aproxima pessoas, cria confiança rapidamente, improvisa e transforma conexões em oportunidades. É uma característica poderosa da nossa cultura de negócios.
Nos Estados Unidos, encontrei algo complementar: uma preocupação maior com o contexto e com a intencionalidade das conexões. Não basta reunir muita gente. Existe valor em reunir as pessoas certas.
Parece uma diferença pequena, mas não é.
No Brasil, muitas vezes medimos a relevância de um evento pelo tamanho da audiência. Quantas pessoas participaram? Quantos empresários estavam presentes? Quantos contatos foram feitos?
Nos Estados Unidos, aprendi a fazer outra pergunta: quem estava na sala?
Uma mesa com dez empresários que enfrentam problemas semelhantes pode gerar mais valor do que um auditório com centenas de pessoas. Porque existe uma diferença importante entre networking e acesso.
Networking aumenta a quantidade de contatos. Acesso aumenta a qualidade das conversas.
Para quem está internacionalizando um negócio, essa diferença se torna ainda mais relevante.
O empreendedor brasileiro que chega aos Estados Unidos traz experiência, conhecimento e uma rede construída durante anos. Mas passa a tomar decisões em um mercado onde ainda não possui as mesmas referências.
Qual advogado realmente entende uma operação cross-border? Quem conhece o mercado local? Qual parceiro já enfrentou aquele problema? Quem já contratou, investiu ou expandiu naquele setor?
Nesse momento, estar na sala certa deixa de ser apenas relacionamento. Passa a ser estratégia.
Existe também um custo invisível em frequentar os ambientes errados. Você participa de eventos, acumula contatos, escuta boas apresentações e volta para casa com mais informação — mas, muitas vezes, com a mesma dúvida estratégica.
Hoje, informação deixou de ser escassa. Temos conteúdo praticamente infinito e inteligência artificial capaz de responder em segundos perguntas que antes exigiam horas de pesquisa.
O que continua escasso é contexto.
Contexto para saber se determinada estratégia funciona no seu setor. Para entender se aquele conselho serve para o tamanho da sua empresa. Para separar uma boa teoria de algo que alguém efetivamente executou.
É por isso que acredito cada vez mais no valor da curadoria.
Tenho visto isso também na construção de ecossistemas empresariais entre Brasil e Estados Unidos. Quando colocamos na mesma sala pessoas com experiência, capacidade de decisão e problemas reais, a conversa começa em outro nível. Ninguém precisa gastar metade do encontro explicando o básico.
E talvez exista justamente aí uma combinação muito poderosa entre os dois países.
Não precisamos perder a capacidade brasileira de criar relações. Precisamos acrescentar a ela algo que o mercado americano faz muito bem: intencionalidade.
Relacionamento com propósito. Conexões com critério. Comunidade com curadoria.
No final, talvez devêssemos prestar menos atenção ao tamanho dos eventos que frequentamos e mais à composição deles.
Porque uma boa sala reduz erros, acelera decisões e expande referências.
E antes de escolher o próximo evento, congresso ou comunidade, talvez valha fazer uma pergunta simples:
Essa sala está à altura de onde eu quero chegar internacionalmente falando?
André Duek
É empreendedor internacional com 40 anos de experiência profissional, foi CEO do Grupo Forum•Triton de Modas no Brasil.
Se mudou para os EUA em 2012 onde fundou a boutique imobiliária Duek Realty que foi adquirida em 2020 pela ONE Sotheby’s International Realty e também o ecossistema de negócios BR Nation em Miami.
Autor do bestseller Potência Empreendedora.

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